Existe uma ideia muito limitada de mediunidade circulando pelo meio espiritual: a de que médium verdadeiro é aquele que vê espíritos, ouve vozes ou entra em incorporação. Quem não apresenta nenhum desses fenômenos costuma dizer que não possui mediunidade, enquanto algumas pessoas que enxergam alguma coisa começam a se considerar mais desenvolvidas do que as outras.
As duas conclusões estão erradas.
Todos somos médiuns porque todos
estamos entre mundos, atravessados por diferentes densidades da realidade.
Alguns percebem essas densidades visualmente. Outros escutam. Há quem perceba
por cheiros, alterações de temperatura, sensações físicas, mudanças emocionais,
imagens mentais ou pela energia dos ambientes.
A diferença não está entre quem é
médium e quem não é. Está na maneira como a mediunidade se manifesta, no grau
de abertura dessa percepção e, principalmente, no preparo de cada pessoa para
compreender aquilo que percebe.
Eu mesmo não vejo espíritos. Não
ouço vozes nem fico recebendo imagens de desencarnados andando pelos lugares.
Entretanto, quando entro em um ambiente, percebo sua energia. Consigo sentir
quando existe alguma coisa diferente, quando o campo está pesado, movimentado,
carregado ou incompatível com aquilo que deveria estar acontecendo ali.
Essa é a maneira pela qual minha
sensibilidade se manifesta.
Isso também é mediunidade. Isso
também é vidência.
Vidência não significa apenas
enxergar uma figura espiritual com os olhos. A palavra foi reduzida à
experiência visual porque o ser humano costuma dar mais valor ao que parece
espetacular. Ver um espírito impressiona mais do que perceber silenciosamente a
energia de um lugar, mas uma experiência não é necessariamente superior à
outra.
Aquele que vê é clarividente.
Aquele que escuta é clariaudiente. Há quem perceba a presença espiritual pelo
cheiro, quem reconheça alterações pelo calor ou pelo frio e quem simplesmente
sinta uma energia atravessando o ambiente ou o próprio corpo. Todas essas
pessoas estão captando alguma coisa além da percepção física habitual.
São formas diferentes de
vidência.
Não é porque eu não vejo que sou
menos médium, menos vidente, menos sacerdote, menos mestre ou menos magista.
Minha autoridade no caminho não depende de produzir o fenômeno mais chamativo
da sala. Ela vem da experiência, da prática, da consciência e da capacidade de
compreender o que está acontecendo.
Da mesma maneira, uma pessoa não
se torna mais desenvolvida do que eu apenas porque enxerga espíritos. Ela
possui uma forma diferente de percepção. Talvez veja aquilo que eu não vejo,
enquanto eu reconheço na energia alguma coisa que ela ainda não aprendeu a
compreender.
Capacidade não estabelece
hierarquia.
Todos estamos entre densidades
A palavra médium significa meio,
intermediário, aquilo que ocupa uma posição entre duas coisas. Dentro da
compreensão espiritual com a qual trabalho, ser médium é estar entre mundos,
entre diferentes estados de existência e entre densidades que acontecem
simultaneamente.
Quando falo em planos, não
imagino andares separados de um edifício cósmico. Não penso no mundo físico
aqui, no mundo espiritual em algum lugar acima e nos deuses instalados ainda
mais longe. Para mim, os planos são densidades diferentes coexistindo com esta
realidade.
Eles acontecem ao mesmo tempo.
Um sinal de rádio pode atravessar
o lugar onde estamos sem que nossos ouvidos consigam escutá-lo diretamente.
Frequências diferentes ocupam o mesmo ambiente, embora seja necessário um
instrumento adequado para captá-las. A incapacidade dos nossos sentidos físicos
de perceber alguma coisa não significa que ela esteja distante ou que não
exista.
A teoria das cordas oferece um
paralelo interessante ao trabalhar, em determinados modelos, com dimensões
adicionais além das três dimensões espaciais percebidas em nossa experiência
cotidiana. O CERN
utiliza o exemplo de um equilibrista e de uma formiga sobre um cabo para
explicar como uma dimensão pode ser inacessível a determinado observador e,
ainda assim, estar disponível a outro que opera numa escala diferente.
Isso não significa que a teoria
das cordas tenha comprovado a existência de espíritos ou planos espirituais.
Não comprovou. Utilizo essa referência como uma comparação possível: perceber
apenas determinadas dimensões da realidade não nos autoriza a concluir que
somente elas existem.
Dentro da visão mágica que
sustento, os planos são densidades diferentes que coexistem. O médium é aquele
que, de alguma maneira, percebe informações, movimentos ou presenças que
atravessam essas densidades.
Como todos estamos no meio delas,
todos somos médiuns.
A mediunidade não se manifesta de uma única maneira
A clarividência é a capacidade de
perceber visualmente aquilo que ultrapassa a visão física comum. Algumas
pessoas enxergam formas completas. Outras percebem vultos, cores, imagens
mentais, símbolos ou cenas. Nem toda clarividência produz a mesma nitidez.
A clariaudiência se manifesta
pela audição. A pessoa pode perceber palavras, sons, nomes, ruídos ou mensagens
que não possuem uma origem física identificável. Isso não significa que toda
voz seja espiritual nem que toda mensagem deva ser obedecida. Perceber é uma
coisa; reconhecer a fonte e decidir o que fazer é outra.
Também existe a percepção pelo
cheiro. Algumas pessoas reconhecem presenças ou alterações energéticas por
aromas que surgem sem uma causa física aparente. Determinado cheiro pode
acompanhar uma entidade, uma energia, uma memória ou alguma movimentação específica.
Há quem perceba através do calor
e do frio. Uma mudança repentina de temperatura pode ser sentida no ambiente
inteiro ou em uma parte específica do corpo. Outras pessoas sentem pressão,
peso, arrepio, formigamento, expansão, cansaço, leveza ou mudanças no próprio
estado emocional.
E existe a percepção energética
direta, que é a forma com a qual mais me identifico. Eu entro no ambiente e
sinto. Não preciso enxergar uma figura nem ouvir uma apresentação para perceber
que o campo mudou. A informação chega através da energia.
Essa pessoa também é vidente.
Ela vê de outra maneira.
O erro está em considerar a visão
espiritual uma espécie de cargo superior dentro da mediunidade. Como se quem
enxergasse entidades ocupasse o primeiro lugar, quem ouvisse estivesse logo
abaixo e quem apenas sentisse tivesse recebido uma versão incompleta do dom.
Isso é vaidade espiritual
disfarçada de classificação.
Não existe uma modalidade
automaticamente superior às outras. Existe percepção bem ou mal desenvolvida.
Existe interpretação consciente ou precipitada. Existe preparo ou despreparo.
Um clarividente pode enxergar perfeitamente e interpretar tudo de maneira
errada. Uma pessoa que sente energias pode não ver imagem alguma e compreender
com precisão o que está acontecendo.
Ver mais não significa
compreender melhor.
O estilo de vida interfere na percepção
A sensibilidade não existe
separada da vida que levamos. Os ambientes, os pensamentos, as companhias e os
lugares que frequentamos influenciam nossa abertura e a maneira como
interpretamos aquilo que sentimos.
Quem permanece constantemente em
determinados ambientes pode começar a perceber com maior intensidade as
energias próprias desses lugares. Quem convive com pessoas desequilibradas pode
absorver impressões que não nasceram em si. Quem frequenta espaços com grande
movimentação espiritual pode ampliar algumas percepções sem estar preparado
para lidar com elas.
Nossos pensamentos também
interferem na sintonia. Uma mente constantemente alimentada pela paranoia
encontra ataques em todo lugar. Uma pessoa dominada pela vaidade encontra
entidades prontas para confirmar que ela é especial. Quem está desesperado por
respostas transforma qualquer mudança de temperatura, sonho ou sensação em
mensagem pessoal.
Isso não significa que a
percepção seja falsa. Significa que ela passa por nós, e nós não somos
instrumentos neutros.
Carregamos histórias, desejos,
medos, traumas, crenças e expectativas. Tudo isso interfere na maneira como
interpretamos uma experiência. É possível sentir uma energia verdadeira e
atribuir a ela uma origem equivocada. É possível perceber uma presença e imaginar
que ela seja alguém que nunca se identificou. É possível ouvir uma mensagem e
acreditar que ela foi destinada a nós quando apenas captamos alguma coisa que
acontecia no ambiente.
Todos somos médiuns, mas nem
todos sabemos separar percepção de interpretação.
Ser médium é natural. Estar preparado exige trabalho
A mediunidade é uma condição
natural do ser humano. O desenvolvimento é uma construção.
Uma pessoa pode enxergar
espíritos desde a infância e nunca aprender a reconhecer aquilo que vê. Pode
ouvir vozes e obedecer a qualquer coisa. Pode incorporar e não possuir
consciência alguma sobre o que acontece com seu corpo. Pode perceber energias e
acreditar que todas elas pertencem a si.
A intensidade do fenômeno não
substitui formação.
Ser médium de verdade, no sentido
de transformar essa capacidade natural em instrumento consciente, exige
trabalho, vivência, doutrina, responsabilidade, treino e orientação.
Exige vivência porque nenhum
livro ensina completamente como uma presença se aproxima, como um ambiente se
modifica ou como determinada força reage. A teoria oferece linguagem e
estrutura, mas é a experiência que transforma informação em conhecimento vivido.
Exige treino porque o médium
precisa aprender a reconhecer sua forma de percepção. Quem vê precisa aprender
a interpretar o que enxerga. Quem escuta precisa distinguir uma comunicação
clara de ruídos, pensamentos e interferências. Quem sente precisa conhecer o
próprio campo para não confundir suas emoções com a energia do ambiente.
Exige doutrina porque a percepção
não pode ficar aberta e disponível para qualquer força. É necessário
estabelecer princípios, limites e relações espirituais reconhecidas. Um médium
sem doutrina pode se tornar instrumento de qualquer presença que descubra como
alcançar sua sensibilidade.
Exige responsabilidade porque
toda atuação produz consequências. Quando alguém transmite uma mensagem em nome
de um espírito, interfere na vida de outra pessoa. Quando realiza um
procedimento mágico, movimenta forças. Quando oferece o próprio corpo a uma
manifestação, assume uma relação que não deveria ser tratada como brincadeira.
Exige consciência porque perder o
controle não é prova de poder. Um médium desenvolvido precisa saber o que está
fazendo, reconhecer seus limites e interromper aquilo que não deveria
continuar.
E exige orientação porque uma
capacidade natural não ensina automaticamente como utilizá-la. Um músico pode
nascer com excelente percepção sonora e ainda precisar estudar para transformar
essa facilidade em música. Uma pessoa pode ter enorme sensibilidade espiritual
e ainda precisar aprender antes de trabalhar com aquilo que percebe.
Orientação séria não existe para
criar dependência eterna. Existe para oferecer estrutura enquanto o praticante
desenvolve autonomia.
Nem sempre o sensitivo precisa abrir mais
Há também uma irresponsabilidade
comum no meio espiritual: a pressa para ampliar uma percepção que a pessoa
ainda não consegue controlar.
Alguém diz que não dorme, escuta
coisas constantemente, absorve todas as emoções do ambiente e não consegue
permanecer em determinados lugares. Em vez de ajudá-la a organizar a vida,
fortalecer o campo e compreender o que acontece, aparecem pessoas dizendo que
ela precisa “desenvolver o dom”.
Mais abertura nem sempre é
desenvolvimento.
Às vezes, o primeiro aprendizado
é fechar. É silenciar, voltar para o corpo, organizar a rotina, descansar,
escolher melhor os ambientes e deixar de alimentar toda presença que aparece.
Se a pessoa já está desgovernada,
aumentar sua percepção apenas aumentará o desgoverno.
Também não devemos transformar
todo sofrimento em missão mediúnica. Experiências espirituais e cuidados com a
saúde física e mental não precisam ser inimigos. Uma casa séria deve olhar para
o ser humano inteiro e reconhecer quando determinada situação exige outros
tipos de acompanhamento.
Responsabilidade espiritual
também é não usar a mediunidade para explicar tudo.
O fenômeno não define o magista
Talvez você veja espíritos com
clareza. Talvez escute vozes. Talvez perceba aromas, calor, frio ou mudanças no
ambiente. Talvez sua sensibilidade seja tão sutil que você ainda nem tenha
aprendido a reconhecê-la.
Nada disso, sozinho, define sua
preparação.
Uma pessoa que vê espíritos não é
automaticamente mais médium do que aquela que sente energias. Também não é
necessariamente mais poderosa, mais evoluída ou mais preparada para orientar
alguém. Ela apenas possui uma manifestação diferente da sensibilidade.
Eu não preciso enxergar espíritos
para saber quem sou no meu caminho. Não preciso ouvir vozes para confirmar
minha mediunidade. Minha experiência não se torna menor porque minha percepção
acontece pela energia.
Não sou menos médium, menos
vidente, menos mestre, menos sacerdote ou menos magista por não produzir o
fenômeno que impressiona os outros.
Minha mediunidade se manifesta da
maneira como meu corpo, minha consciência e meu caminho conseguem perceber as
densidades que nos atravessam. O que determina a qualidade do meu trabalho não
é a aparência do fenômeno, mas a consciência com que lido com ele.
Todos somos médiuns. Todos
possuímos alguma forma de vidência. Alguns veem, outros escutam, sentem
cheiros, percebem pelo calor, pelo frio, pelo corpo ou diretamente pela
energia. Alguns possuem percepções mais abertas. Outros ainda não aprenderam a
reconhecer aquilo que sentem.
Mas capacidade natural não é
sinônimo de preparo.
O que diferencia um médium
consciente não é o espetáculo que ele consegue produzir. É sua capacidade de
compreender, governar e utilizar aquilo que percebe com responsabilidade.
Ver não é compreender. Ouvir não
é receber uma missão. Sentir não é dominar. Incorporar não é saber trabalhar.
Ser médium é estar entre mundos.
Tornar-se um médium preparado é
aprender a caminhar entre eles sem perder o governo de si mesmo.