Bruxaria, política e poder

 

Ocupar espaços sem permitir que eles nos possuam

Existe uma tentativa frequente de separar completamente espiritualidade e política, como se uma pertencesse apenas ao templo, ao círculo e ao mundo invisível, enquanto a outra estivesse restrita aos partidos, às eleições e aos gabinetes. Entretanto, toda ação humana que envolve convivência, interesses, direitos, escolhas e relações de poder possui alguma dimensão política.

Até o silêncio produz consequências políticas. A neutralidade também favorece determinadas estruturas, especialmente quando alguém presencia uma injustiça e decide não se posicionar.

Reconhecer isso não significa transformar a bruxaria em partido, palanque eleitoral ou ferramenta de políticos. Também não significa permitir que ideologias externas ditem aquilo em que devemos acreditar. Significa compreender que vivemos em sociedade e que as decisões tomadas dentro das instituições interferem diretamente em nossa liberdade de existir, praticar, ensinar, reunir pessoas, abrir templos, realizar cerimônias e transmitir nossas tradições.

A bruxaria não precisa ser governada pela política. Mas os bruxos precisam possuir consciência política.

Nossos valores vêm antes dos partidos

A atuação política da bruxaria deve nascer de seus próprios valores. Entre eles estão o respeito à natureza, a liberdade religiosa, a pluralidade, a dignidade humana, o consentimento, a responsabilidade, a reciprocidade e a proteção daqueles que são perseguidos ou colocados à margem da sociedade.

Esses valores podem nos aproximar, em determinados momentos, de algumas correntes políticas. Isso é natural. Se defendemos igualdade, liberdade, justiça, proteção ambiental e respeito às minorias, provavelmente encontraremos grupos que apresentam propostas semelhantes.

Mas aproximação não deve significar submissão.

Possuir valores políticos não obriga ninguém a entregar sua consciência a um partido. Nenhuma sigla deve receber nossa obediência automática. Nenhum político deve ser colocado acima dos princípios que afirmamos defender.

Se uma organização considerada de direita viola a dignidade humana, deve ser confrontada. Se uma organização considerada de esquerda tenta controlar a liberdade, silenciar divergências ou instrumentalizar nossas práticas, também deve ser confrontada. O compromisso do magista consciente não pode estar com um lado apenas porque recebeu um rótulo conveniente. Precisa estar com os valores que sustentam sua ação.

Quando a bruxaria deixa de questionar o poder e passa apenas a servi-lo, ela perde uma parte importante de sua natureza.

Um Estado laico não é um Estado contra as religiões

Defender a laicidade não significa desejar o desaparecimento das religiões da sociedade. Um Estado verdadeiramente laico não é inimigo da fé. Ele apenas não escolhe qual religião merece mais respeito, privilégios ou autoridade sobre a vida coletiva.

A liberdade garantida ao cristão precisa alcançar, na mesma medida, o wiccano, o umbandista, o candomblecista, o quimbandeiro, o ocultista, o espírita, o ateu e qualquer pessoa que escolha outro caminho ou nenhum deles.

Não existe liberdade religiosa verdadeira quando uma tradição consegue entrar nas instituições, influenciar políticas públicas, ocupar espaços de decisão e realizar seus cultos livremente, enquanto outras precisam esconder seus símbolos, explicar constantemente que não praticam crimes ou enfrentar dificuldades até para regularizar seus locais de reunião.

Ao mesmo tempo, liberdade religiosa não pode ser usada como justificativa para abuso, violência, discriminação ou violação dos direitos de alguém. Nenhuma religião deve possuir autorização para ferir pessoas apenas porque determinada conduta foi revestida de doutrina.

A liberdade de culto termina onde começam a dignidade, a integridade e os direitos do outro.

Não precisamos escolher entre ser espirituais ou políticos. Nossa espiritualidade deve orientar nossa ética na vida pública, enquanto a política deve garantir as condições necessárias para que diferentes espiritualidades possam existir com liberdade e segurança.

A perseguição às bruxas nunca teve uma única causa

Quando falamos sobre a perseguição histórica às pessoas chamadas de bruxas, precisamos evitar explicações simplistas. Não existiu uma única causa capaz de explicar todos os acontecimentos ocorridos em diferentes épocas e lugares.

Mulheres foram perseguidas. Homens também foram. Pobres, curandeiros, parteiras, hereges, opositores, estrangeiros e pessoas consideradas inconvenientes às estruturas dominantes igualmente se tornaram alvos.

Gênero, medo, propriedade, dinheiro, controle social, disputa religiosa e centralização do poder frequentemente se misturaram. Em alguns casos, a acusação de bruxaria serviu para controlar mulheres. Em outros, ajudou a eliminar adversários, confiscar propriedades, impor determinada moral ou fortalecer autoridades religiosas e políticas.

Reduzir tudo a uma única causa empobrece a compreensão do fenômeno. A perseguição se tornou tão eficiente justamente porque conseguia reunir preconceito, medo e interesses materiais sob uma mesma acusação.

O poder aprendeu, há muito tempo, que é mais fácil eliminar alguém quando primeiro se convence a sociedade de que essa pessoa representa uma ameaça.

Essa lição histórica continua importante. Sempre que um grupo minoritário é apresentado como perigoso, imoral, inimigo da família, ameaça à ordem ou responsável pela decadência da sociedade, devemos observar quais interesses são fortalecidos por essa narrativa.

Permanecer à margem não deve ser romantizado

A bruxaria sempre carregou uma dimensão de resistência. Ela preservou conhecimentos, práticas e formas de compreender o mundo que muitas estruturas tentaram eliminar. Estar à margem permitiu que determinados caminhos sobrevivessem sem depender completamente da aprovação do poder dominante.

Mas a margem também possui um preço.

Estar fora das instituições pode significar ausência de representação, dificuldade para abrir e regularizar templos, obstáculos na obtenção de documentos, limitações para exercer capelania, falta de participação em conselhos e pouca capacidade de influenciar decisões que atingem diretamente nossas comunidades.

Os direitos podem estar escritos na Constituição e, ainda assim, não se realizarem automaticamente.

Entre a existência de um direito no papel e sua aplicação concreta existe uma estrutura burocrática. Existem formulários, regulamentos, interpretações administrativas, licenciamentos, cadastros, exigências fiscais e servidores que nem sempre conhecem ou reconhecem as particularidades das religiões pagãs.

Quando não ocupamos os espaços em que essas decisões são tomadas, outras pessoas decidem por nós. Elas definem se somos religião, se nossos templos merecem reconhecimento, se nossas cerimônias possuem legitimidade e se temos direito à mesma proteção concedida aos grupos majoritários.

Resistir à margem pode preservar certa liberdade, mas não deve servir como desculpa para a desorganização. A marginalidade imposta é uma violência. A marginalidade escolhida como identidade permanente pode se transformar em acomodação.

Conhecimento espiritual não substitui preparação técnica

Não basta conhecer rituais, ervas, deuses, espíritos, símbolos e sistemas mágicos. Se desejamos participar das decisões que afetam nossas comunidades, precisamos compreender também o funcionamento do mundo institucional.

Isso exige estudar Constituição, Direito, economia, geopolítica, administração pública e o funcionamento das instituições. Exige aprender como se organiza juridicamente um templo ou uma associação, como acompanhar um projeto de lei, como registrar um caso de intolerância e como dialogar tecnicamente com o poder público.

Não adianta chegar a uma audiência pública dominando correspondências planetárias e sem compreender o processo legislativo. Também não basta reivindicar liberdade religiosa sem conhecer os instrumentos disponíveis para protegê-la.

A magia pode orientar nossa vontade, fortalecer nossa presença e ampliar nossa consciência. Mas, diante de uma exigência administrativa, também precisaremos de documentação. Diante de uma violação, precisaremos de provas. Diante de uma proposta legislativa, precisaremos compreender seu texto e suas consequências.

Espiritualidade sem organização corre o risco de produzir discursos poderosos e resultados frágeis.

A preparação técnica não diminui a magia. Ela oferece meios concretos para que nossa visão consiga atuar no mundo.

Ocupar quais espaços?

A participação política não começa necessariamente com a candidatura a um cargo eletivo. Existem muitos espaços que podem e devem ser ocupados antes disso.

Podemos participar de conselhos, fóruns inter-religiosos, audiências públicas, conferências e comissões. Podemos acompanhar projetos de lei e políticas públicas, registrar casos de intolerância, produzir dados, organizar juridicamente nossas comunidades e desenvolver projetos culturais, sociais e educacionais.

Precisamos preparar pessoas capazes de dialogar com secretarias, prefeituras, universidades, escolas, hospitais, presídios e demais instituições. Também devemos construir alianças com outras minorias religiosas, sem fingir que somos todos iguais e sem apagar as diferenças existentes entre nossas tradições.

Uma aliança não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige apenas que reconheçam um direito comum que precisa ser protegido.

Podemos discordar profundamente de determinada religião e, ainda assim, defender seu direito de existir. Na realidade, é justamente aí que a defesa da liberdade demonstra se é verdadeira. Proteger apenas a crença da qual gostamos não é defender liberdade religiosa. É proteger afinidades.

O objetivo não deve ser criar uma hegemonia pagã nem conquistar privilégios para nós. Se desejamos apenas substituir o domínio de uma religião pelo domínio da nossa, não estamos combatendo a opressão. Estamos apenas disputando o lugar do opressor.

Como entrar no poder sem ser dominado por ele?

Depois de mais de quinze anos trabalhando em campanhas políticas, percebi que a máquina política tende a proteger seus próprios interesses. Ela busca conservar privilégios, garantir continuidade e manter os grupos que já possuem acesso aos espaços de decisão.

Pessoas entram nessa estrutura prometendo transformá-la, mas muitas acabam sendo transformadas por ela. Pouco a pouco, a representação se torna carreira, a causa vira discurso e os princípios começam a ser negociados em nome da permanência.

Por isso, ocupar espaços exige consciência e vigilância.

Não podemos permitir que a busca por representação mate nossa consciência espiritual. O magista que entra em uma instituição precisa saber por que entrou, quais limites não atravessará e quais princípios não negociará.

Também precisa aceitar que ocupar determinado espaço não o torna dono da comunidade. Nenhuma pessoa, associação ou tradição pode se declarar representante absoluta de toda a diversidade pagã. Nossa pluralidade impede que uma única voz fale legitimamente por todos.

A representação precisa possuir limites, transparência e responsabilidade. Caso contrário, corremos o risco de reproduzir internamente as mesmas estruturas autoritárias que criticamos na sociedade.

Entrar nas instituições não deve significar tornar-se parte obediente da máquina. Deve significar abrir caminhos, garantir direitos e manter a capacidade de confrontar o próprio espaço ocupado quando ele tentar nos controlar.

Precisamos ocupar os espaços sem permitir que eles nos possuam.

Bruxaria é resistência, mas resistência precisa de organização

Bruxaria é resistência. Bruxaria é oposição. Ela não aceita automaticamente todas as regras da sociedade como um bom cordeiro conduzido pelo rebanho.

O magista estuda, herda, desenvolve e utiliza poder para proteger a si mesmo e os seus. Questiona aquilo que lhe é apresentado como natural, inevitável ou sagrado. Investiga quem criou determinada regra, quem se beneficia dela e quem é colocado à margem por sua existência.

Mas resistir não é suficiente.

Resistência sem organização pode se transformar apenas em discurso. Oposição sem preparo pode virar somente barulho. Revolta sem direção consome energia, mas raramente modifica estruturas.

Não basta afirmar que somos perseguidos. Precisamos documentar a perseguição. Não basta dizer que não temos representação. Precisamos formar pessoas preparadas para representar nossas necessidades. Não basta reclamar que as instituições não nos reconhecem. Precisamos aprender como funcionam, ocupar seus espaços e exigir que os direitos existentes sejam cumpridos.

A verdadeira ação política da bruxaria não está em repetir palavras de ordem ou obedecer a determinada ideologia. Está em transformar conhecimento espiritual em consciência, organização e responsabilidade coletiva.

Não precisamos de políticos governando nossa magia. Também não precisamos transformar sacerdotes em donos da consciência política de seus grupos. Precisamos de pessoas capazes de pensar, questionar, estudar e agir sem abandonar os princípios que sustentam seus caminhos.

Devemos estar dentro da sociedade o suficiente para participar das decisões, mas livres o bastante para confrontar o poder quando ele tenta nos controlar.

A bruxaria não precisa de uma política que diga como a magia deve existir. Precisa de consciência política, preparação técnica e ação coletiva para impedir que outras pessoas decidam se nossos caminhos possuem ou não o direito de existir.

Porque, se não participarmos das decisões, elas continuarão sendo tomadas.

Apenas serão tomadas sem nós.


KSB-812
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