Proteção demais também é paranoia

nem todo revés é demanda

Certa vez eu conheci uma pessoa para quem tudo era ataque. Qualquer desconforto exigia proteção. Qualquer mudança no ambiente era interferência. Qualquer problema que surgisse parecia confirmar que alguém estava fazendo alguma coisa contra ela. Era preciso levantar defesa, reforçar escudo, fazer espelhamento, devolver energia e procurar a origem da suposta demanda.

Isso não é um caso isolado. Tenho observado esse comportamento com frequência no meio mágico. Algumas pessoas estão tão preocupadas em se proteger que passaram a enxergar inimigos em toda parte. Vivem levantando barreiras, devolvendo ataques e reforçando campos contra ameaças que, muitas vezes, só existem na interpretação delas.

Não estou dizendo que ataques mágicos não existam. Não estou dizendo que demandas, obsessões, feitiços e interferências espirituais sejam invenções. Seria incoerente com tudo o que pratico, estudo e ensino. Existem forças direcionadas, pessoas mal-intencionadas e movimentos espirituais capazes de atingir alguém.

Mas nem tudo é demanda.

Às vezes, é apenas a vida acontecendo.

O magista não precisa virar um crente com outro vocabulário

Existe um tipo de religioso para quem tudo é obra do demônio. O relacionamento terminou porque o inimigo agiu. O dinheiro acabou porque o diabo atacou. O carro quebrou porque alguma força maligna tentou impedir uma bênção. A pessoa perdeu o horário, esqueceu o compromisso, gastou mais do que podia e não cuidou do que precisava, mas a responsabilidade termina sempre nas costas de alguma entidade invisível.

Alguns magistas apenas trocaram o vocabulário.

Não dizem mais que foi o demônio. Dizem que foi demanda. Não falam em tentação, falam em interferência energética. Não veem perseguição demoníaca, mas encontram obsessores, inimigos astrais, larvas, kiumbas e feitiços em cada esquina.

No fim, o mecanismo é o mesmo: uma força invisível se torna responsável por tudo aquilo que a pessoa não quer, não consegue ou ainda não aprendeu a examinar em si mesma.

Daqui a pouco parece Power Ranger, com um inimigo novo chegando em cada episódio. A pessoa mal resolveu uma demanda e já apareceu outra. Fez espelhamento na segunda, reforçou a proteção na terça, tomou banho de descarrego na quarta, acendeu vela na quinta e, na sexta, já está perguntando quem tentou atacá-la novamente.

Talvez ninguém tenha tentado.

Talvez o universo inteiro não esteja parando seus afazeres para conspirar contra você.

Essa possibilidade costuma ferir mais o ego do que a ideia de estar sob ataque. Para algumas pessoas, é mais confortável acreditar que despertam inveja e medo nos outros do que admitir que se atrasaram, se desorganizaram, fizeram uma escolha ruim ou ignoraram sinais evidentes de que alguma coisa precisava de cuidado.

A fantasia da perseguição ainda oferece uma sensação de importância. O acaso, o descuido e a consequência não oferecem.

Às vezes, o problema é mecânico

Seu carro apresentou defeito. Você imediatamente pensa que alguém fechou seus caminhos. Mas quando foi realizada a última manutenção? O óleo estava sendo trocado corretamente? Os pneus estavam bons? Os ruídos que apareceram semanas antes foram investigados ou você aumentou o volume da música para não escutar?

Nenhum espelhamento substitui manutenção preventiva.

Sua vida financeira entrou em crise. Você começa a procurar quem invejou sua prosperidade. Mas existia planejamento? Havia uma reserva? Os gastos estavam sendo acompanhados? Você assumiu dívidas contando com um dinheiro que ainda não havia chegado?

Nenhuma vela de prosperidade corrige sozinha uma relação irresponsável com o dinheiro.

Você está cansado, irritado, sem concentração e sentindo o corpo pesado. Antes de concluir que existe uma energia drenando sua força, talvez seja necessário perguntar quando foi a última vez que dormiu direito, praticou alguma atividade física, cuidou da alimentação ou simplesmente bebeu água.

Às vezes, o grande ataque espiritual da tarde é desidratação.

Isso pode parecer engraçado, mas existe algo muito sério por trás dessa postura. Quando interpretamos todo problema como demanda, deixamos de investigar as causas concretas. Em vez de realizar manutenção, fazemos proteção. Em vez de organizar as contas, acendemos velas. Em vez de conversar, tentamos cortar energias. Em vez de descansar, reforçamos escudos.

A magia passa a ser usada não para transformar a realidade, mas para evitar que tenhamos de encará-la.

Magia é eixo, não obsessão

A magia deve ocupar um lugar central na vida do magista. Se escolhemos caminhar pela Arte, é natural que nossa percepção, nossas decisões e nossa maneira de compreender o mundo sejam atravessadas por ela. Não faz sentido fingir que somos magistas apenas durante um ritual e viver o restante do tempo completamente separados daquilo em que acreditamos.

A magia deve ser eixo.

Mas eixo não é bitola.

Existe uma diferença entre ter a magia como centro e tentar explicar absolutamente tudo através dela. Um eixo organiza o movimento. Uma bitola estreita a visão até que a pessoa só consiga enxergar uma possibilidade.

O magista centrado considera o espiritual sem abandonar o material. Observa o campo, mas também verifica os fatos. Consulta o oráculo quando necessário, mas não usa cartas para substituir bom senso. Faz proteção, mas também fecha a porta, confere os documentos, revisa o veículo, organiza as contas e escolhe melhor as pessoas com quem se relaciona.

Ele compreende que a realidade não deixa de possuir causas físicas, emocionais, sociais e práticas apenas porque a magia existe.

Ser magista não significa viver fora da experiência humana. Continuamos sendo seres viventes, atravessando um corpo, uma rotina, relacionamentos e circunstâncias que nem sempre estão sob nosso controle. Dentro dessa experiência estão as dores, os amores, os dissabores, as lágrimas e os sorrisos.

Possuir conhecimento para interferir na realidade não significa que nunca seremos surpreendidos por ela.

Existem inúmeras possibilidades acontecendo ao mesmo tempo. Pessoas mudam. Planos falham. Objetos quebram. Corpos adoecem. Relações terminam. O clima interfere. O trânsito atrasa. O mercado muda. Alguém comete um erro que nos atinge sem jamais ter pensado em nos atacar.

Nem tudo que nos prejudica foi direcionado contra nós.

Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis para quem vive em estado permanente de defesa. Uma coisa pode causar dor sem ter sido criada para ferir você. Um acontecimento pode atrapalhar seus planos sem possuir qualquer intenção espiritual. Uma pessoa pode agir mal por egoísmo, imaturidade ou incompetência, sem ter realizado feitiço algum.

O mundo não precisa estar nos atacando para que coisas ruins aconteçam.

Espelhar o quê?

O feitiço de espelhamento se tornou quase uma resposta automática para qualquer desconforto. A pessoa sente alguma coisa estranha e já quer devolver. Acontece um problema e ela imediatamente levanta um espelho para que tudo retorne à origem.

Mas retorne o quê?

Se não houve ataque, o que exatamente você está devolvendo? Se o problema nasceu de uma escolha sua, o espelho vai mandar sua própria irresponsabilidade de volta para quem? Se a dificuldade surgiu da falta de planejamento, talvez o reflexo só mostre a pessoa que deveria ter planejado.

Proteção sem discernimento pode alimentar a própria paranoia. A pessoa realiza um trabalho defensivo, sente algum alívio e usa esse alívio como prova de que realmente estava sendo atacada. Depois, qualquer novo desconforto confirma que a ameaça voltou. Assim nasce um ciclo no qual a pessoa se protege porque acredita estar sob ataque e acredita estar sob ataque porque sente necessidade de se proteger.

Cada proteção reforça a narrativa anterior.

Com o tempo, ela passa a viver cercada por muralhas mágicas e continua sem perceber que o problema talvez esteja acontecendo dentro delas.

Não existe defesa suficientemente forte para proteger alguém das consequências das próprias escolhas. Você pode levantar círculos, escudos, espelhos e guardiões, mas ainda precisará lidar com aquilo que deixou de fazer, com o que ignorou e com as responsabilidades que empurrou para depois.

Magia não foi feita para nos livrar da maturidade.

A proteção também consome energia

Todo trabalho mágico movimenta força. Proteger, banir, cortar, espelhar e devolver não são ações vazias. Exigem atenção, intenção, energia e sustentação. Quando alguém vive em estado constante de defesa, passa a utilizar uma parte considerável da própria força para combater ameaças que talvez nem existam.

É como manter uma fortaleza inteira em estado de guerra porque uma folha bateu no portão.

O corpo permanece tenso. A mente procura sinais. O sensitivo entra em qualquer ambiente tentando descobrir quem está contra ele. Uma expressão diferente vira inveja. Um silêncio vira intenção oculta. Um problema vira confirmação de ataque.

Essa pessoa deixa de viver e passa a vigiar.

E quanto mais vigia, mais encontra aquilo que procura, porque toda interpretação já começa com a conclusão pronta: alguma coisa está me atacando.

O verdadeiro trabalho de proteção deveria gerar segurança, não dependência. Uma boa estrutura defensiva permite que o magista viva, trabalhe, ame, erre, aprenda e siga seu caminho sem precisar reconstruir muralhas todos os dias.

Se sua proteção exige que você permaneça apavorado para continuar funcionando, talvez ela não esteja protegendo seu campo. Talvez esteja sustentando seu medo.

O discernimento começa pelo óbvio

Quando alguma coisa acontece, não precisamos negar imediatamente a possibilidade espiritual. Precisamos apenas evitar que ela seja sempre a primeira e única explicação.

Antes de procurar uma demanda, observe o que é concreto. Houve falha de planejamento? Algum cuidado foi negligenciado? Existem causas físicas possíveis? O problema se repete porque alguém está atacando ou porque o mesmo comportamento continua sendo repetido? Há fatos que sustentam a suspeita ou apenas uma sensação alimentada pelo medo?

Depois disso, podemos investigar o campo mágico com mais clareza.

O magista responsável não é aquele que nega o invisível. É aquele que não usa o invisível para fugir do que está diante dos olhos.

Se existem indícios reais de interferência, devemos agir. Proteção é necessária. Defesa é necessária. Em alguns casos, apenas se defender também não basta e uma ação mais direta precisa ser realizada. Mas tudo isso deve nascer de uma leitura consciente, não de uma compulsão defensiva.

Não se desembainha uma espada toda vez que alguém espirra perto de nós.

Reconhecer uma demanda exige mais do que ter medo dela. Exige observar padrões, consequências, alterações energéticas e possíveis origens. Exige confirmar antes de agir. Exige conhecer o próprio estado para não atribuir aos outros aquilo que nasceu dentro de nós.

Quem não conhece a própria energia interpreta qualquer alteração como invasão.

Nem toda dor pede proteção

Algumas experiências não precisam ser repelidas. Precisam ser vividas.

O fim de uma relação dói, mas nem sempre existe interferência espiritual separando o casal. Às vezes, as pessoas simplesmente deixaram de caminhar na mesma direção. Uma frustração profissional pode doer sem que alguém tenha fechado seus caminhos. Talvez outro candidato estivesse mais preparado, talvez a oportunidade não fosse adequada ou talvez ainda exista algo a ser aprendido.

Proteger-se da vida também significa impedir-se de vivê-la.

Se levantarmos escudos contra toda dor, podemos acabar bloqueando os processos que nos transformariam. Nem todo desconforto é inimigo. Nem todo obstáculo deve ser banido. Algumas dificuldades revelam despreparo, mostram limites, corrigem direções e obrigam o magista a desenvolver aquilo que ainda não possui.

A proteção correta preserva nossa integridade. A proteção compulsiva preserva nossas ilusões.

Há momentos em que precisamos nos defender. Há outros em que precisamos admitir que erramos. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A vida não está perseguindo você

Ser magista é reconhecer que a realidade pode ser movimentada, mas também compreender que não somos o centro de todos os acontecimentos. O universo não existe apenas para premiar, ensinar, testar ou atacar cada um de nós individualmente.

Às vezes, chove porque choveu.

Às vezes, o carro quebrou porque uma peça chegou ao fim de sua vida útil.

Às vezes, o dinheiro acabou porque gastamos mais do que recebemos.

Às vezes, o corpo está fraco porque não cuidamos dele.

Às vezes, alguém foi embora porque quis ir.

E, sim, às vezes existe uma demanda. Mas quando ela realmente existir, o magista deverá reconhecê-la com lucidez, não porque transformou todo revés em prova de perseguição.

Precisamos estar centrados na magia sem ficarmos bitolados nela. Precisamos reconhecer a dimensão espiritual da vida sem abandonar a responsabilidade sobre aquilo que é material, emocional e cotidiano. Precisamos saber levantar proteção, mas também realizar manutenção. Saber banir, mas também planejar. Saber consultar o oráculo, mas também beber água.

Fica o alerta, coleguinhas: nem tudo é feitiço, nem tudo é demanda e nem todo desconforto pede defesa. Algumas coisas exigem magia. Outras exigem maturidade, prevenção, organização, conversa, descanso ou coragem para admitir que a vida simplesmente aconteceu.

Antes de levantar mil proteções, descubra primeiro do que está tentando se proteger.

Porque talvez ninguém esteja atacando você.

Talvez seja apenas a realidade cobrando aquilo que você deixou de cuidar.

 

KSB-812

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