Se você está em um lugar onde não está aprendendo nem contribuindo, use seus dois pés e procure outro espaço no qual possa aprender ou oferecer alguma coisa.
Apesar de ter surgido em outro contexto, esse princípio pode provocar uma reflexão necessária dentro de covens, tradições, ordens mágicas, terreiros, templos, círculos de estudos e outras comunidades espirituais.
Muitas pessoas permanecem durante anos em um caminho sem saber por que continuam ali. Não estudam, não praticam, não perguntam, não participam e também não ajudam a sustentar aquilo que recebem. Estão presentes fisicamente, aparecem em algumas cerimônias, acompanham os grupos de mensagens, mas deixaram de caminhar há muito tempo.
Outras permanecem insatisfeitas, acumulando incômodos que nunca comunicaram aos seus dirigentes. Reclamam fora do grupo, conversam com todo mundo, menos com quem poderia compreender a situação e buscar alguma solução.
Existem ainda aquelas que partem ao primeiro desconforto. Confundem orientação com perseguição, correção com humilhação, disciplina com autoritarismo e limite com rejeição. Usam os dois pés, mas não por consciência. Usam por birra, orgulho ou incapacidade de lidar com qualquer experiência que confronte suas vontades.
Por isso, aplicar a Lei dos Dois Pés aos caminhos espirituais exige muito mais do que simplesmente dizer: “se não gostou, vá embora”.
Exige liberdade, mas também maturidade.
Você ainda está aprendendo?
Todo caminho espiritual sério deve produzir movimento. Isso não significa que toda reunião precisa apresentar uma revelação extraordinária nem que o praticante deverá sair de cada encontro dominando um conhecimento novo.
Aprender também é repetir, aprofundar, observar, silenciar, praticar e amadurecer aquilo que já foi ensinado.
Em muitos caminhos iniciáticos, determinados ensinamentos precisam ser revisitados diversas vezes. O conteúdo pode parecer o mesmo, mas a pessoa que retorna a ele já não deveria ser. Aquilo que um neófito compreende durante seu primeiro ano não é necessariamente o que compreenderá depois de uma década de prática.
Portanto, antes de afirmar que não está aprendendo nada, o praticante precisa observar com honestidade: realmente não existe mais aprendizado ou ele deixou de estudar, praticar e se abrir para aquilo que está sendo oferecido?
Existe uma diferença entre não receber conhecimento e não se comprometer com o conhecimento recebido.
Algumas pessoas acumulam apostilas que nunca leram, exercícios que nunca realizaram, orientações que ignoraram e práticas que abandonaram pela metade. Depois afirmam que a casa não ensina, que o sacerdote não oferece nada ou que o caminho está parado.
Talvez o caminho não esteja parado.
Talvez a pessoa tenha parado de caminhar.
Por outro lado, também existem espaços que realmente deixaram de ensinar. Casas que repetem promessas, mantêm seus membros em dependência, escondem conhecimentos indefinidamente e utilizam a ideia de hierarquia para impedir qualquer crescimento verdadeiro.
Existem dirigentes que desejam seguidores, não praticantes conscientes. Pessoas que mantêm seus membros esperando por um conhecimento que nunca chega, porque alguém autônomo talvez já não precise obedecer da mesma maneira.
O praticante precisa saber avaliar as duas possibilidades.
Estou recebendo condições reais para aprender? Tenho acesso às orientações compatíveis com meu nível e meu compromisso? Estou praticando aquilo que recebo? Minhas dúvidas são acolhidas? Existe desenvolvimento ou apenas expectativa? Continuo aqui porque cresço ou porque tenho medo de partir?
Essas perguntas não servem apenas para julgar a casa. Também servem para examinar a própria postura dentro dela.
Você está contribuindo?
Uma comunidade espiritual não pode ser sustentada somente por seus sacerdotes, dirigentes, pais e mães de santo, mestres, administradores ou pelas mesmas poucas pessoas que sempre se apresentam para trabalhar.
Alguém prepara o espaço. Alguém organiza o calendário. Alguém limpa, cozinha, responde mensagens, ensina, compra materiais, cuida dos objetos, recebe os novos membros, resolve conflitos, conduz cerimônias e assume responsabilidades que muitas vezes permanecem invisíveis.
Quando uma pessoa apenas chega, recebe e vai embora, ela talvez frequente aquela comunidade, mas ainda não compreendeu verdadeiramente o que significa pertencer a ela.
Contribuir não significa necessariamente oferecer dinheiro ou assumir grandes funções. Cada pessoa participa dentro de suas condições, habilidades e possibilidades. Algumas ensinam. Outras ajudam na organização. Algumas cuidam do espaço. Outras oferecem escuta, experiência, arte, alimento, transporte, divulgação ou presença.
Até uma pergunta sincera pode contribuir. Uma resposta pode abrir uma reflexão. Compartilhar uma experiência pode ajudar alguém que atravessa a mesma dificuldade. Participar de um debate pode movimentar conhecimentos que permaneceriam adormecidos.
O problema começa quando a pessoa transforma a comunidade em uma espécie de serviço espiritual. Ela aparece quando precisa, solicita orientação, recebe atenção e desaparece até surgir outra necessidade.
Não estuda, não responde, não ajuda, não pergunta e não compartilha. Entretanto, deseja encontrar tudo funcionando quando decidir retornar.
Comunidade não é plateia. Tradição não é produto de consumo. Caminho espiritual não é um aplicativo que permanece instalado, ocupando espaço, enquanto nunca é utilizado.
Se você não está aprendendo, talvez seja necessário perguntar por quê.
Se também não está contribuindo, talvez seja necessário perguntar por que ainda ocupa aquele espaço.
Antes de partir, converse
Nem todo incômodo significa que precisamos abandonar o caminho. Às vezes, aquilo que parece uma incompatibilidade definitiva é apenas um problema que nunca foi comunicado.
Sacerdotes, dirigentes, pais e mães de santo, mestres e responsáveis não possuem a capacidade de adivinhar tudo o que acontece dentro de cada pessoa. Podem observar mudanças, afastamentos e silêncios, mas nem sempre saberão o que os causou.
Se você se sente desmotivado, esquecido, confuso, deslocado ou acredita que não está aprendendo, procure quem conduz o espaço.
Fale sobre o que sente.
Pergunte sobre seu desenvolvimento. Questione o que se espera de você. Busque compreender se existe uma etapa que ainda precisa ser concluída, se alguma postura está impedindo seu avanço ou se realmente houve uma falha na maneira como o grupo está conduzindo seu aprendizado.
Essa conversa também permite que a liderança reveja suas práticas. Nenhuma casa é perfeita. Nenhum dirigente percebe tudo. Uma crítica feita com respeito e clareza pode revelar problemas que estavam passando despercebidos.
Conversar, entretanto, não significa exigir que toda a tradição seja modificada para atender exclusivamente às nossas vontades. Significa apresentar uma questão e estar disposto a escutar a resposta.
Talvez o dirigente reconheça uma falha. Talvez explique algo que você ainda não havia compreendido. Talvez a conversa revele que suas expectativas são incompatíveis com a proposta do caminho. Em qualquer dessas situações, haverá mais clareza para decidir.
O silêncio prolongado raramente resolve aquilo que nunca foi dito.
Não é justo acumular ressentimentos durante meses, falar mal do grupo em outros ambientes e depois acusar seus dirigentes de não solucionarem uma situação que nunca conheceram.
Antes de partir, sempre que houver segurança e possibilidade de diálogo, converse.
Mas, se não houver espaço para conversa, se toda dúvida for tratada como rebeldia e qualquer incômodo provocar ameaça ou humilhação, isso também é uma resposta.
Nem toda vontade de partir é sinal de evolução
A Lei dos Dois Pés não pode se transformar em justificativa para fugir de qualquer desconforto.
Um caminho espiritual sério nem sempre será agradável. Em alguns momentos, ele confrontará nosso ego, exigirá disciplina e mostrará aspectos de nós mesmos que preferiríamos não enxergar.
Ser corrigido não é necessariamente ser perseguido. Receber um limite não significa ser desrespeitado. Ouvir que ainda não está preparado para determinada função não é sempre uma tentativa de impedir seu crescimento.
Às vezes, você ainda não está preparado.
Essa possibilidade precisa ser considerada com humildade.
Existem pessoas que entram em uma comunidade desejando reconhecimento imediato. Querem cargos, segredos, iniciações e autoridade antes de demonstrarem constância, responsabilidade ou conhecimento. Quando não recebem aquilo que esperavam, concluem que a casa está bloqueando seu desenvolvimento.
Partem e procuram outro lugar onde talvez recebam mais rapidamente o título desejado.
Quando encontram novamente algum limite, partem outra vez.
Depois de alguns anos, passaram por várias tradições, colecionaram nomes mágicos, graus, iniciações e certificados, mas não criaram raiz em lugar algum. Conhecem a entrada de muitos caminhos e a profundidade de nenhum.
Isso não é liberdade espiritual. É turismo iniciático.
Usar os dois pés com sabedoria não significa correr sempre que o ego for contrariado. Significa reconhecer quando permanecer deixou de produzir aprendizado ou contribuição, depois de examinar seriamente a própria responsabilidade naquela situação.
Antes de sair, pergunte:
Estou partindo porque o caminho já não faz sentido ou porque fui contrariado?
Existe desrespeito real ou apenas recebi uma orientação que não gostei?
A casa deixou de ensinar ou eu deixei de estudar?
Não me permitem contribuir ou eu apenas quero contribuir da forma que alimenta meu ego?
Estou buscando um espaço mais coerente ou um lugar que confirme tudo o que desejo ouvir?
Algumas partidas são libertadoras. Outras são apenas fugas vestidas de independência.
Nem toda permanência é sinal de lealdade
Assim como não devemos partir por qualquer birra, também não devemos permanecer apenas por culpa, medo ou dependência.
Tempo de caminhada não cria obrigação eterna.
Você pode amar as pessoas de uma comunidade e perceber que já não consegue continuar ali. Pode reconhecer tudo o que aprendeu sem acreditar que aquele ainda seja o seu lugar. Pode agradecer a um sacerdote pelo que recebeu e, mesmo assim, escolher outro caminho.
Partir não apaga a história vivida.
Infelizmente, algumas comunidades tratam qualquer saída como traição. A pessoa pode ter servido, estudado e contribuído durante anos, mas basta decidir seguir outra direção para que tudo o que fez seja desprezado.
Essa postura revela insegurança institucional.
Uma tradição segura não precisa aprisionar seus membros para provar seu valor. Um dirigente consciente compreende que algumas pessoas permanecerão durante toda a vida, enquanto outras caminharão ao lado do grupo apenas por determinado período.
O fato de alguém partir não significa necessariamente que a casa falhou. Talvez aquele ciclo apenas tenha se encerrado.
Também existem situações mais graves. Ambientes que praticam abuso, violência, exploração financeira, manipulação emocional, controle excessivo ou violação de consentimento não merecem permanência em nome de uma falsa lealdade.
Hierarquia não é autorização para abuso.
Tradição não é propriedade sobre pessoas.
Compromisso não significa entregar a alguém o governo completo de sua vida.
Quando a permanência exige que a pessoa abandone sua dignidade, o problema não está em usar os dois pés. O problema está em ter sido convencida de que não poderia usá-los.
Analise o caminho inteiro, não apenas o momento
Uma avaliação séria não pode ser construída apenas sobre o que sentimos durante uma semana difícil.
Todo grupo atravessa conflitos, cansaço, reorganizações e períodos menos produtivos. Sacerdotes também adoecem, enfrentam problemas, cometem erros e precisam reorganizar suas vidas. Comunidades são formadas por seres humanos, não por personagens espirituais perfeitos.
Antes de concluir que o caminho não oferece mais nada, observe sua trajetória inteira.
O que você aprendeu desde que chegou?
Quais mudanças ocorreram em sua vida e em sua prática?
Você recebeu apoio quando precisou?
Teve oportunidades reais de participar?
Suas dúvidas foram tratadas com respeito?
Os princípios anunciados pela casa aparecem em suas atitudes?
Os erros são reconhecidos e corrigidos?
As regras existem para proteger a comunidade ou apenas para concentrar poder?
Você consegue enxergar crescimento, mesmo que ele não tenha ocorrido exatamente da maneira esperada?
Também é necessário observar o preço dessa permanência. Você se tornou mais consciente, responsável e autônomo ou mais dependente, inseguro e incapaz de decidir sem autorização?
Um bom caminho não transforma seus membros em cópias de seus dirigentes. Ele oferece estrutura para que desenvolvam consciência, domínio e responsabilidade.
A avaliação precisa considerar tudo isso, sem idealizar e sem demonizar.
Quando o ego domina a análise, a pessoa enxerga apenas os próprios desejos. Quando a mágoa domina, todos os momentos bons desaparecem. Quando a dependência domina, até os abusos começam a parecer ensinamentos.
Discernimento exige distância suficiente para olhar o conjunto.
A responsabilidade também pertence aos dirigentes
A Lei dos Dois Pés não serve apenas aos membros. Dirigentes também precisam se perguntar se continuam aprendendo e contribuindo.
Um sacerdote que acredita já saber tudo começou a se afastar da própria sabedoria. Uma liderança que apenas exige participação, mas não oferece presença, orientação ou escuta, precisa rever seu papel.
Não podemos cobrar comprometimento de pessoas que nunca recebem direção. Não podemos exigir movimento sem apresentar caminhos possíveis. Também não devemos manter alguém preso a uma comunidade apenas para preservar quantidade, prestígio ou aparência de força.
Às vezes, o próprio dirigente precisa conversar honestamente com o membro e dizer que talvez aquele não seja mais o lugar adequado para ele.
Isso não deve ser feito como ameaça ou punição. Pode ser um reconhecimento responsável de que as expectativas, os valores ou as necessidades já não coincidem.
Manter alguém em um espaço no qual ela não aprende, não contribui e ainda prejudica constantemente a dinâmica coletiva não é acolhimento. É adiar uma decisão necessária.
Liberdade de permanência também envolve liberdade de reconhecer incompatibilidades.
Permanecer também precisa ser uma escolha
Há uma pergunta que todo praticante deveria fazer de tempos em tempos:
Por que ainda estou aqui?
Não para alimentar uma crise constante ou desconfiar de tudo, mas para renovar conscientemente sua escolha.
Estou aqui porque aprendo.
Estou aqui porque contribuo.
Estou aqui porque acredito nos princípios deste caminho.
Estou aqui porque, mesmo enfrentando dificuldades, reconheço sentido naquilo que estamos construindo.
Quando conseguimos responder dessa maneira, a permanência deixa de ser hábito e volta a ser compromisso.
Também pode acontecer de a resposta ser outra:
Estou aqui apenas porque tenho medo de começar novamente.
Estou aqui porque não quero decepcionar alguém.
Estou aqui porque já investi muitos anos.
Estou aqui porque possuo um cargo.
Estou aqui porque não sei quem serei fora deste grupo.
Essas respostas não devem ser ignoradas.
A Lei dos Dois Pés nos lembra que permanecer precisa continuar sendo uma escolha. Mas toda escolha consciente possui consequências. Se decidimos ficar, precisamos assumir responsabilidade sobre nossa presença. Se decidimos partir, precisamos fazê-lo com honestidade e respeito pela história construída, sempre que a situação permitir.
Use os dois pés, mas leve a consciência junto
A liberdade de partir é essencial. Nenhuma comunidade espiritual saudável deveria depender de pessoas mantidas pelo medo, pela culpa ou pela obrigação.
Entretanto, liberdade não é irresponsabilidade. Não significa desaparecer sem conversa, abandonar compromissos assumidos, criar conflitos para justificar uma saída ou destruir a reputação de uma casa apenas porque ela não satisfez nossas expectativas.
Quando for possível, encerre ciclos com clareza. Devolva materiais e objetos que pertencem ao grupo. Cumpra ou reorganize responsabilidades já assumidas. Converse com as pessoas envolvidas. Reconheça o que recebeu, sem esconder aquilo que também o fez partir.
E, se decidir permanecer, permaneça de verdade.
Estude. Pergunte. Pratique. Responda. Ajude. Compartilhe. Esteja presente. Não espere que sempre sejam as mesmas pessoas responsáveis por manter o fogo aceso enquanto você apenas se aquece ao redor dele.
A Lei dos Dois Pés não é uma ordem para ir embora.
É um chamado para perceber onde estamos, o que estamos recebendo e o que estamos oferecendo.
Se você está aprendendo, permaneça e aprofunde.
Se está contribuindo, continue fortalecendo.
Se não está aprendendo nem contribuindo, converse, reavalie sua postura e descubra se ainda existe um caminho possível naquele espaço.
Se não houver, tenha liberdade e maturidade para partir.
Mas não tome essa decisão dominado pelo ego, pela manha, pela birra ou pela imaturidade. Não confunda liberdade com fuga, disciplina com perseguição nem frustração com opressão.
Use os dois pés, mas leve junto a consciência, a gratidão, a responsabilidade e o discernimento.
Porque saber partir é importante.
Mas saber por que permanecemos ou por que partimos é o que realmente demonstra nosso desenvolvimento espiritual.
KSB-812
www.fogoprimal.com.br