Quando a magia era sagrada o bastante para não aceitarmos desculpas

Quando eu era aprendiz, há muitos e muitos anos, vivi algo que hoje me parece cada vez mais raro no caminho mágico: a disponibilidade total. Não estou falando de uma disponibilidade vazia, de gente sem vida, sem trabalho, sem problemas ou sem responsabilidades. Estou falando de uma disposição interna quase faminta, uma vontade de aprender e praticar magia que não aceitava qualquer obstáculo como sentença. A gente queria aprender. Queria praticar. Queria estar perto dos mestres, dos irmãos, dos ritos, das conversas, das teorias, dos erros e das descobertas. A magia era prioridade real, não discurso bonito para ser repetido quando sobrava tempo. É claro que éramos jovens. 

É claro que, em alguns aspectos, tínhamos mais tempo e menos peso nas costas do que muita gente tem hoje. Eu entendo que a vida mudou, que as demandas mudaram, que muita gente trabalha, cuida de casa, cuida de filho, atravessa necessidade, cansaço, pressão e ansiedade. Não ignoro isso. Mas também não aceito a mentira confortável de que antigamente não tínhamos afazeres, obrigações ou dificuldades. Tínhamos, sim. Eu mesmo trabalhava à noite nos fins de semana. Durante a semana era mais tranquilo, mas ainda assim havia vida, corpo, fome, sono, deslocamento, falta de dinheiro e responsabilidade. A diferença é que nada disso tinha força suficiente para nos arrancar da magia.

Nossas aulas de magia eram sagradas. Eu e alguns irmãos do caminho morávamos no final de Aparecida de Goiânia, e as aulas aconteciam aos domingos, às sete da manhã, no Bosque dos Buritis, em Goiânia. Para muita gente, isso por si só já seria motivo para desistir. Era longe. Era cedo. Dependíamos de ônibus. Muitas vezes saíamos de casa às cinco da manhã para estar lá no horário. E estávamos. Com sol, com chuva, com sono, virados de festa, de trabalho, de rito ou de qualquer lugar que fosse. Se era dia de aprender magia, nós íamos.

Aqueles encontros dominicais tinham algo de sacramento. Não era apenas uma aula. Era a oportunidade de estar sentado diante de um mestre, ouvindo, aprendendo, destrinchando teorias mágicas, recebendo orientação, encontrando irmãos de caminho e comungando a magia de uma forma que muita gente talvez nem compreenda hoje. Não estávamos necessariamente em rito, não havia sempre grande cerimônia, invocação ou tambor. Às vezes era apenas sentar, ouvir, perguntar, anotar, refletir e sair dali com a cabeça incendiada. Mas aquilo também era magia. Aprender também era rito. Estar presente também era oferenda.

Ali ouvíamos o que deveria ser feito durante a semana e, claro, também o que não deveria ser feito. E, como bons aprendizes cheios de fogo, muitas vezes nos juntávamos durante a semana para fazer tudo: o que podia, o que era permitido, o que estava no limite e, vez ou outra, até aquilo que não deveríamos ainda estar fazendo. Não digo isso como exemplo de irresponsabilidade a ser copiado, mas como memória de uma fome real. Queríamos experimentar. Queríamos testar. Queríamos sentir na pele. Erramos muito, acertamos muito, quebramos a cara, colhemos resultados, passamos medo, rimos, aprendemos e seguimos. Foi assim que muita coisa deixou de ser teoria e virou corpo.

Porque existe uma diferença enorme entre gostar de magia e colocar a magia no centro da vida. Gostar de magia é achar bonito, comprar livro, salvar postagem, falar sobre energia e esperar o momento perfeito para começar. Colocar a magia no centro é sair de madrugada sem saber exatamente como vai voltar. É caminhar com sono, com fome, com frio, com calor, com pouco dinheiro e ainda assim ir. É atravessar quilômetros para se reunir com irmãos e ler um livro sob a sombra de uma árvore no meio da serra, em silêncio absoluto, porque aquela era a oportunidade que havia. É entender que a formação mágica não acontece apenas quando tudo está confortável.

Muitas vezes não tínhamos dinheiro. E, ainda assim, a magia sempre provia. Não porque ficávamos parados esperando o universo nos servir como empregados mimados da espiritualidade, mas porque nos movíamos. Quando precisávamos de dinheiro para passagem, comida, vela, erva, bebida, instrumento, deslocamento ou qualquer item necessário para um rito, algo surgia. Um trabalho. Um lote para capinar. Uma gorjeta. Um dinheiro que alguém dava. Às vezes até dinheiro encontrado na rua no momento exato. A magia provia porque nós nos dispúnhamos. Ela não nos abandonava porque nós não a abandonávamos.

Isso é algo que muita gente precisa compreender: confiança mágica não é passividade. Confiar na magia não é cruzar os braços e esperar que tudo caia pronto no colo. Nós nos preocupávamos, sim, com o porvir. Sabíamos que havia dificuldades. Sabíamos que fazer magia não era de graça. Havia itens a comprar, passagens a pagar, comida durante noites inteiras fora, deslocamentos para lugares afastados, necessidades de toda ordem. Mas caminhávamos mesmo sem saber exatamente o que viria. Havia uma confiança que nascia do movimento. A estrada se abria porque a gente colocava o pé nela.

Hoje vejo muita gente dizendo que não tem tempo. E, às vezes, é verdade. Mas também vejo muita gente usando a falta de tempo como altar para a própria falta de vontade. A modernidade trouxe dificuldades, sim, mas também trouxe facilidades imensas. Hoje há comunicação instantânea, transporte mais acessível em muitos casos, aulas online, grupos, mensagens, vídeos, bibliotecas digitais, chamadas de voz, pix, mapas, localização, registros, arquivos, calendários, lembretes, facilidades que nós não tínhamos. Hoje muita coisa pode ser resolvida em tempo real. Então é preciso ter coragem para admitir: em muitos casos, não é que não dê. É que a magia não está no topo da lista.

E aqui não falo de desculpa no sentido cruel, como se toda pessoa que não consegue fosse fraca, preguiçosa ou sem valor. Não é isso. Há doenças, há miséria, há filhos, há trabalho pesado, há esgotamento, há realidades duras. Mas também existe uma desculpa espiritualizada, uma justificativa confortável que transforma qualquer obstáculo em permissão para não caminhar. O ponto não é romantizar sofrimento. O ponto é perguntar com honestidade: o que realmente me impede, e o que eu estou apenas usando como escudo para não assumir aquilo que digo querer?

Quando eu era aprendiz, não existia “não” na nossa vivência. Existia “vamos dar um jeito”. Existia “como fazemos?”. Existia “quem tem dinheiro para a passagem?”. Existia “quem leva vela?”. Existia “onde nos encontramos?”. Existia “que horas saímos?”. Existia “se não der por aqui, vai por ali”. Era sempre sim, sempre mais, sempre aprendendo, sempre vivendo a magia. Não porque fosse fácil, mas porque era sagrado. E quando algo é sagrado de verdade, a pessoa não o trata como atividade opcional para quando a agenda sorri.

Cheguei a passar dois anos sendo quase visita na minha própria casa. Ia para a casa do meu sacerdote na segunda-feira e só voltava no fim de semana porque precisava trabalhar. E, se em algum momento fosse necessário faltar ao trabalho para cumprir algo mágico, eu dava meu jeito, fazia meus pulos, resolvia. Não estou dizendo que todo mundo deva repetir isso literalmente, nem que se deva agir sem responsabilidade material. Estou dizendo que havia uma escolha clara de prioridade. A magia era o foco. O caminho era o eixo. O resto era organizado em torno disso tanto quanto fosse possível.

Eu ia para o trabalho do meu sacerdote, para a faculdade dele, acompanhava sua rotina, e no meio disso aprendia. Passávamos a tarde tendo aula, conversando, absorvendo, perguntando, destrinchando fundamentos. À noite, quando chegávamos, íamos praticar o que havia sido ensinado durante o dia. Dormíamos em média duas ou três horas por noite. Sim, era exaustivo. Sim, era impossível para muita gente. Sim, havia exageros próprios da juventude. Mas era sagrado para nós. E essa palavra precisa ser recuperada: sagrado.

Porque quando algo é sagrado, ele não fica depois de tudo. Não fica depois da preguiça, depois da distração, depois da novela, depois da rolagem infinita da tela, depois da desculpa, depois do medo, depois do conforto. O sagrado reorganiza a vida. Ele cobra presença. Ele convoca o corpo. Ele exige movimento. Ele pede que a pessoa atravesse algum incômodo para provar, antes de qualquer mestre ou sacerdote, para si mesma, que aquilo realmente importa.

Sinto falta dessa garra em muitos aprendizes. Sinto falta da fome. Sinto falta da proatividade. Sinto falta de gente que abocanha toda oportunidade de aprender, que pergunta, que aparece, que se oferece, que quer estar presente, que não espera convite formal para se mover, que entende que cada conversa pode ser aula, cada orientação pode ser chave, cada deslocamento pode ser parte do rito, cada dificuldade pode ensinar algo sobre a própria vontade. Muita gente quer resultado mágico sem disposição mágica. Quer iniciação sem entrega. Quer caminho sem estrada. Quer ser reconhecida como aprendiz, mas não quer viver como aprendiz.

E viver como aprendiz não é apenas receber ensinamento. É estar disponível para ser transformado por ele. É estudar quando há aula e praticar quando há oportunidade. É chegar cedo, mesmo com sono. É comparecer quando se comprometeu. É ajudar quando precisa. É observar o mestre, observar os irmãos, observar a si mesmo. É entender que a formação acontece também nos bastidores, no ônibus, na espera, na caminhada, no cansaço, na falta de dinheiro, na improvisação, na disciplina e na insistência.

Hoje parece que muita gente espera a magia caber perfeitamente dentro da rotina antes de começar a vivê-la. Espera ter dinheiro, tempo, disposição, estabilidade emocional, instrumento bonito, altar perfeito, agenda livre, clima favorável, grupo ideal e vida organizada. Mas a preparação absoluta não existe. A vida nunca vai abrir um corredor completamente limpo e dizer: “agora sim, caminhe sem obstáculos”. O caminho se revela enquanto se caminha. A estrada aparece para quem se move, não para quem fica sentado reclamando que ainda não apareceu uma estrada confortável.

Isso não significa abandonar responsabilidade, trabalho, família, saúde ou sobrevivência. Não significa romantizar exaustão, pobreza ou imprudência. Mas significa compreender que vontade real produz organização real. Quem quer de verdade começa a encontrar brechas, negocia horários, se planeja, pergunta, se antecipa, economiza, acorda mais cedo, dorme mais tarde quando necessário, aparece como pode, ajuda como consegue, pratica com o que tem e aprende com o que surge. Quem quer de verdade pode até falhar, mas não desaparece. Pode cansar, mas não abandona. Pode reclamar, mas continua.

A magia sempre respondeu à nossa disposição porque havia aliança. Nós nos dávamos a ela, e ela se dava a nós. Não como fantasia romântica, mas como experiência concreta. Quanto mais nos movíamos, mais portas apareciam. Quanto mais praticávamos, mais aprendíamos. Quanto mais nos colocávamos disponíveis, mais o caminho se abria. Não porque éramos especiais, mas porque estávamos ali. Inteiros. Famintos. Presentes. Errando, acertando, testando, quebrando a cara e voltando.

Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre o aprendiz que cresce e o aprendiz que apenas circula pela borda do caminho: disponibilidade. O primeiro não espera tudo ficar ideal. Ele se move. O segundo sempre tem uma explicação para não estar. O primeiro entende que a magia exige corpo, tempo, esforço e presença. O segundo transforma a magia em identidade, estética, discurso ou desejo distante. O primeiro vive. O segundo comenta.

Eu não escrevo isso para exigir que todos vivam como nós vivemos. Cada tempo tem suas condições, cada pessoa tem seus limites, cada corpo tem sua realidade. Mas escrevo para lembrar que a magia não floresce em quem coloca tudo acima dela. Não há caminho profundo sem prioridade. Não há formação sólida sem sacrifício. Não há aprendizado verdadeiro sem movimento. Não há poder mágico construído apenas com vontade abstrata.

Se você quer magia, caminhe. Se quer aprender, esteja disponível. Se quer ser formado, pare de tratar cada obstáculo como autorização para parar. Se não tem dinheiro, procure caminho. Se não tem tempo, organize o que puder. Se está cansado, faça o possível mesmo assim. Se não pode tudo, faça o que pode com verdade. Mas não diga que a magia é o centro da sua vida se ela é sempre a primeira coisa que você abandona quando surge dificuldade.

O caminho mágico nunca foi para quem espera facilidade. Ele é para quem sente o chamado e responde. Para quem entende que a vontade precisa ser maior que a desculpa. Para quem não coloca o conforto acima da formação. Para quem sabe que haverá fome, sono, chuva, ônibus, distância, cansaço, falta de dinheiro, medo e incerteza, mas ainda assim levanta e vai.

Porque, no fim, a magia não abandona quem não a abandona.

KSB-812

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