Primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro
Existe um ditado que eu sempre repito para os meus aprendizes, e ele costuma incomodar quem ainda está preso nessa espiritualidade domesticada, cheia de culpa, falsa humildade e autoabandono disfarçado de evolução: primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Sim, é exatamente isso. Primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Antes que alguém venha com aquele discurso pronto dizendo que isso é egoísmo, falta de amor, falta de compaixão ou excesso de ego, eu já aviso que é justamente sobre ego que estou falando. E mais do que isso, estou defendendo o ego. Porque o ego é uma das forças mais injustiçadas dentro dos caminhos espirituais. Muito se fala em matar o ego, dissolver o ego, calar o ego, vencer o ego, superar o ego, como se ele fosse uma doença a ser eliminada. Mas quase ninguém tem coragem de dizer que, sem ego, o ser humano vira presa.
E no caminho mágico, presa não opera. Presa é operada.
Um magista sem ego forte não sustenta altar, não sustenta palavra, não sustenta escolha, não sustenta limite, não sustenta iniciação, não sustenta força. Ele pode até decorar rito, acender vela, falar bonito, usar roupa preta e postar frase profunda, mas no primeiro confronto real entrega o próprio centro para alguém mais forte, mais esperto, mais manipulador ou mais mal-intencionado. Depois ainda chama isso de humildade, entrega, amor, aprendizado ou espiritualidade.
Não. Muitas vezes é só fraqueza vestida de luz.
O ego não é inimigo do magista. O ego é estrutura. É identidade. É limite. É a percepção de “eu sou”. É aquilo que permite ao indivíduo saber onde ele começa, onde termina e até onde o outro pode ou não entrar. Um ego fraco abre porta para invasão. Um ego confuso se ajoelha para qualquer autoridade. Um ego malformado aceita migalhas e chama de aprendizado. Um ego destruído confunde abuso com prova espiritual.
É por isso que eu digo: primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Esse ditado não é uma autorização para ser cruel, irresponsável ou indiferente. Não é licença para pisar nos outros, usar pessoas, abandonar compromissos ou transformar o mundo inteiro em serviçal da própria vontade infantil. Quem entende assim ainda está pensando com ego sujo, ego carente, ego poluído por vaidade pequena. Eu estou falando de outra coisa. Estou falando do ego limpo, trabalhado, cultivado, fortalecido e consciente.
O ego que eu defendo não é esse ego desesperado por aplauso, por validação ou por superioridade. Eu falo do ego que salva a pessoa de se abandonar. O ego que protege quando alguém tenta invadir seus limites. O ego que levanta a cabeça quando a vida tenta dobrar sua coluna. O ego que sabe dizer não, que percebe quando algo está errado, que olha para uma situação de merda e entende que não pertence mais àquilo. Esse ego não é inimigo da espiritualidade. Esse ego é sagrado, porque sem ele o magista vira presa fácil.
O problema é que muita gente foi treinada para acreditar que cuidar de si é pecado. Que se escolher é maldade. Que se colocar em primeiro lugar é egoísmo. Que dizer não é falta de amor. Que impor limite é grosseria. Que sair de um ambiente tóxico é ingratidão. Que desconfiar de alguém é falta de fé. Que não aceitar migalha é orgulho. E aí a pessoa vai ficando cada vez mais “espiritualizada” e cada vez menos dona de si.
Vira alimento fácil para picareta, manipulador, falso mestre, grupo doente, relação abusiva, narcisista e todo tipo de gente que sente de longe quem não tem centro. Um ego fraco é porta aberta para predador. E isso precisa ser dito sem delicadeza demais, porque tem gente que só entende quando a espada bate na mesa.
Quem não cultiva o próprio ego, quem não reconhece a própria importância, quem não sabe dizer “eu primeiro”, vai cair na mão de quem sabe dizer isso por ele. Só que, quando o outro diz “eu primeiro” usando você, você vira ferramenta da vontade dele. Vira peça, degrau, fonte de energia, mão de obra emocional, espiritual, afetiva, sexual, financeira ou simbólica. E o pior é que muitas vezes a pessoa ainda acredita que está sendo humilde.
Humildade não é se abandonar. Humildade não é se diminuir. Humildade não é aceitar qualquer coisa. Humildade não é negar o próprio poder para não incomodar os fracos. Humildade verdadeira é saber quem você é sem precisar mentir sobre isso. É reconhecer sua força sem virar escravo dela. É saber sua grandeza sem precisar esmagar ninguém. É olhar para o próprio ego e entender que ele precisa ser aliado da consciência, não tirano da alma.
É claro que o ego precisa ser trabalhado. Isso é óbvio. Ego sujo é perigoso. Ego ferido é perigoso. Ego infantil é perigoso. Ego desesperado por validação é perigoso. Ego que precisa humilhar para se sentir grande é ridículo. Ego que não suporta crítica é frágil. Ego que transforma qualquer discordância em ataque é imaturo. Mas a solução não é matar o ego. A solução é limpar o ego, fortalecer o ego, educar o ego e colocá-lo no lugar certo.
O ego deve ser o guardião do templo, não um falso deus no altar. Deve proteger a casa, não incendiar a vizinhança. Deve sustentar a identidade, não aprisionar o magista em vaidade banal. O ego precisa ser forte o suficiente para não se ajoelhar para qualquer um, e limpo o suficiente para não transformar todo mundo em inimigo.
Essa é a diferença que muita gente não entende. Um magista sem ego não tem defesa, mas um magista dominado pelo ego não tem sabedoria. O caminho não é ausência de ego nem escravidão ao ego. O caminho é o ego forte, limpo e governado.
Quando eu digo “primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro”, estou ensinando ordem de prioridade energética. Se eu não estou inteiro, aquilo que eu dou ao outro sai quebrado. Se eu não estou alimentado, o que ofereço vira sacrifício podre. Se eu não me protejo, minha ajuda vira porta de invasão. Se eu não me escolho, começo a chamar autoabandono de amor.
E o magista não pode viver se traindo em nome de uma bondade performática.
Existe muita gente que se diz boa, mas no fundo só tem medo de desagradar. Gente que se diz generosa, mas está tentando comprar pertencimento. Gente que se diz humilde, mas só não tem coragem de ocupar espaço. Gente que se diz espiritual, mas aceita qualquer absurdo porque não sabe sustentar o próprio “não”. Isso não é virtude. Isso é desgoverno.
O magista precisa se colocar em primeiro lugar porque ele é o próprio instrumento da operação. Se o instrumento está quebrado, contaminado, esgotado, invadido, confuso ou drenado, todo trabalho sofre. O altar começa no corpo. O círculo começa no centro. A vontade começa no eu. Então como alguém quer operar a realidade se não tem coragem nem de se escolher?
Primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Frise isso na alma.
Não porque o outro não importe, mas porque o outro não pode ser mais importante do que o centro que sustenta sua existência. Quando o outro vem antes de você o tempo todo, você desaparece. E quando você desaparece, qualquer um pode te definir, te usar, te conduzir, te convencer de que sua dor é exagero, seu limite é egoísmo e sua vontade é errada.
É assim que manipuladores trabalham. Eles atacam justamente o ego da vítima. Fazem a pessoa duvidar de si. Fazem ela achar que está sendo orgulhosa quando tenta se defender. Fazem ela se sentir culpada por ter limite. Fazem ela acreditar que amor é suportar tudo, que espiritualidade é obedecer, que evolução é aguentar calado, que questionar é vaidade e que dizer não é falta de fé. Quando a pessoa percebe, já entregou o próprio trono.
Por isso o ego é uma arma de defesa espiritual.
O ego bem trabalhado olha para manipulação e reconhece o cheiro. Ele percebe quando alguém tenta diminuir sua percepção. Ele sente quando uma relação começa a cobrar sua alma em troca de migalha. Ele vê quando uma autoridade espiritual quer obediência em vez de crescimento. Ele entende quando o discurso de amor está sendo usado como corrente. E quando esse ego está limpo, firme e alinhado, ele diz não sem precisar pedir desculpa por existir.
Esse “não” muitas vezes é mais mágico do que qualquer ritual, porque fecha porta, corta laço, devolve energia, reorganiza campo e mostra para o invisível e para o mundo que ali existe alguém ocupando o próprio corpo.
Um magista sem “eu” não firma vontade. E sem vontade, não há magia.
Como alguém vai dizer “assim eu quero, assim será” se não tem um eu forte o bastante para querer? Como alguém vai comandar energia se vive pedindo desculpa por existir? Como alguém vai abrir caminho se a opinião dos outros ainda decide sua direção? Como alguém vai lidar com entidades, forças, sombras, desejos e potências se qualquer pessoa com voz firme já o coloca de joelhos?
Não dá.
O caminho mágico exige um ego capaz de sustentar presença. Ego não é o oposto da espiritualidade. Ego é uma das estruturas que impede a espiritualidade de virar fuga. Sem ego, a pessoa não transcende. Ela se dissolve antes de ter forma. E quem se dissolve sem forma vira massa nas mãos de qualquer coisa. Antes de superar o ego, tenha um. Antes de dissolver a identidade, construa uma. Antes de falar em unidade, aprenda a não ser invadido por qualquer um.
Tem gente querendo ser oceano, mas ainda não sabe nem proteger o próprio copo.
O magista precisa saber se preservar. Precisa se escolher. Precisa olhar para si com respeito. Precisa cultivar orgulho saudável, sim. E eu sei que essa palavra incomoda. Orgulho saudável. Esse orgulho que levanta a cabeça, endireita a coluna e lembra que você não nasceu para ser resto na mesa de ninguém.
Isso não é arrogância. Arrogância é precisar diminuir o outro para se sentir grande. Ego forte é não precisar se diminuir para caber onde não te cabe. Existe uma diferença enorme entre uma coisa e outra.
O ego limpo não implora lugar. Ele reconhece onde deve estar. O ego limpo não se vende por aceitação. Ele sabe o próprio preço. O ego limpo não aceita ser manipulado em nome de amor, grupo, mestre, tradição ou espiritualidade. Ele respeita o outro, mas não abandona a si.
E é exatamente por isso que ele é fundamental no caminho do magista. Porque magia é vontade, e vontade precisa de um eu. Magia é direção, e direção precisa de centro. Magia é poder, e poder precisa de alguém capaz de sustentá-lo sem se perder.
Então sim, eu defendo o ego. Eu cultuo o ego. Eu trabalho meu ego. Eu alimento meu ego com consciência, porque sei que ele é parte da minha armadura, da minha lâmina e do meu trono. Não quero um ego sujo, infantil e carente. Quero um ego claro, forte, firme e a serviço da minha Vontade Real. Um ego que não pede licença para existir, que não se ajoelha para culpa, que não confunde amor com submissão e que sabe que ajudar o outro não pode significar abandonar a si mesmo.
Primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Esse ditado é uma provocação, mas também é uma chave. Ele força o aprendiz a encarar onde ainda se abandona, onde ainda se oferece demais, onde ainda aceita pouco, onde ainda confunde bondade com servidão, onde ainda tem medo de parecer egoísta e, por isso, vive sendo usado por gente que não tem medo nenhum de ser egoísta de verdade.
O magista precisa entender que quem não se coloca em primeiro lugar será colocado em último por alguém. Se você não guarda seu centro, alguém ocupa. Se você não governa seu ego, alguém manipula. Se você não reconhece seu valor, alguém compra sua força por qualquer migalha emocional. Se você não sustenta sua vontade, alguém te dá uma vontade pronta e chama isso de caminho.
Por isso, antes de salvar o mundo, salve-se. Antes de carregar o outro, sustente-se. Antes de servir uma tradição, veja se você não está se usando como sacrifício barato. Antes de chamar isso de amor, veja se não é medo de ficar só. Antes de chamar isso de humildade, veja se não é pavor de assumir a própria grandeza.
O ego nos salva quando está limpo, nos protege quando está forte e nos levanta quando está alinhado. O magista que não reconhece isso ainda está esperando permissão para ser inteiro.
Eu não ensino meus aprendizes a serem bonzinhos. Ensino a serem conscientes. Ensino a terem amor, mas também lâmina. Ensino a terem compaixão, mas também limite. Ensino a ouvirem o outro, mas não acima da própria alma. Ensino que servir ao caminho não é se tornar tapete espiritual.
Porque magista que se abandona não é virtuoso. É vulnerável. E o mundo está cheio de gente esperando encontrar alguém vulnerável com discurso bonito de luz, amor e entrega.
Então repita até entender: primeiro eu, depois eu e se sobrar, o outro.
Não para negar o outro.
Mas para nunca mais negar a si mesmo.