Magista não reclama de nada
Existe uma frase que pode parecer dura no primeiro contato, mas que carrega uma das maiores verdades do caminho mágico: magista não reclama de nada.
E não reclama por quê? Porque reclamar é, muitas vezes, a confissão de que a pessoa esqueceu quem é. É a declaração pública de que ela está se sentindo menor que a própria circunstância. É quando alguém abre a boca para alimentar a situação que deveria estar transformando. O magista verdadeiro não se coloca nesse lugar por muito tempo. Ele pode sentir raiva, pode se cansar, pode reconhecer que algo está pesado, injusto, difícil ou mal conduzido. Mas ele não faz da reclamação uma morada. Ele não transforma a própria impotência em discurso.
Porque, se ele é magista, ele sabe que a realidade não é apenas algo que acontece com ele. A realidade também é algo que ele alimenta, permite, aceita, escolhe, sustenta e cria. Mesmo quando a situação não nasceu diretamente de sua vontade consciente, ele ainda precisa se perguntar: por que continuo aqui? Por que alimento isso? Por que aceito esse lugar? Por que ainda entrego minha energia a essa forma? O magista não olha para a vida como uma vítima jogada ao acaso. Ele olha como alguém que precisa assumir sua parte no campo.
Isso não significa culpar-se por tudo de forma infantil ou cruel. Não se trata de dizer que toda dor é merecida, que toda dificuldade foi desejada ou que toda ferida foi escolhida conscientemente. Essa seria uma leitura rasa e violenta. O ponto é outro. O ponto é que, a partir do momento em que algo está diante de mim, a responsabilidade sobre o que farei com aquilo é minha. Eu posso aceitar, posso mudar, posso sair, posso cortar, posso transformar, posso aprender, posso destruir a estrutura e reconstruir outra. Mas o que eu não posso é passar a vida reclamando como se não tivesse poder nenhum.
Um magista que reclama de tudo precisa se perguntar se está realmente praticando magia ou apenas usando o título como enfeite. Porque magia não é discurso bonito. Magia é movimento. É operação. É transformação da realidade conforme vontade, conhecimento e energia. Se a situação está ruim, o magista tem o dever de mover. Se está confusa, ele tem o dever de clarear. Se está pesada, ele tem o dever de transmutar. Se está presa, ele tem o dever de abrir caminho. Se está insustentável, ele tem o dever de sair.
O que não cabe é viver anunciando a própria prisão e, ao mesmo tempo, se proclamar senhor da Arte.
Magista não reclama de nada.
Essa frase não quer dizer que o magista não sinta. Ele sente. Às vezes sente até mais do que os outros, porque sua sensibilidade está aberta, sua percepção está treinada e sua consciência capta camadas que muita gente nem percebe. Mas sentir não é a mesma coisa que se render. Reconhecer uma dor não é o mesmo que cultuar a dor. Falar de um problema para resolvê-lo não é o mesmo que reclamar para permanecer nele.
Reclamar, no sentido mais pobre da palavra, é gastar energia mantendo viva a realidade que se diz querer mudar. A pessoa reclama do trabalho, mas não se move. Reclama da relação, mas não se posiciona. Reclama da falta de dinheiro, mas não muda a estrutura. Reclama da espiritualidade, mas não estuda. Reclama dos caminhos fechados, mas não caminha. Reclama da vida, mas continua fazendo as mesmas escolhas que sustentam a vida da qual reclama.
Então, onde está a magia?
Se a boca diz “sou magista”, mas a vida inteira diz “sou refém”, existe uma contradição. E contradição não sustenta poder.
Uma coisa importante que ouvi de uma amiga ficou gravada em mim. Eu tinha começado a reclamar de uma matéria da faculdade, e ela me disse, de forma simples e direta, que eu não tinha por que reclamar, porque fui eu mesmo que decidi estar ali. Se eu escolhi estar ali, era responsabilidade minha aceitar, mudar minha postura ou sair. Aquilo pareceu pequeno na hora, mas nunca mais saiu de mim. Porque serve para praticamente tudo.
Se fui eu que escolhi entrar, eu preciso assumir o que essa escolha exige. Se eu não quero mais, eu preciso ter coragem de mudar. Se eu não posso sair agora, preciso parar de alimentar a reclamação e aprender a atravessar. Se a situação me incomoda, então ela está me mostrando onde minha vontade ainda não está soberana. E se minha vontade não está soberana, o trabalho começa exatamente aí.
O magista não precisa gostar de tudo. Não precisa aceitar tudo sorrindo. Não precisa fingir paz diante do absurdo. Mas ele precisa entender que reclamar sem agir é abdicar do trono interno. É entregar o cetro da própria realidade para a circunstância. É dizer: “isso tem mais poder sobre mim do que eu tenho sobre isso”.
E isso não combina com magia.
Quem trabalha com magia precisa entender uma coisa: a palavra cria. A palavra alimenta. A palavra firma. Toda vez que você reclama repetidamente de algo, você está colocando som, emoção e energia naquela forma. Você está invocando de novo. Está reforçando o campo. Está dizendo para a realidade: “olha isso aqui, continua existindo em mim”. Depois acende vela, faz rito, chama força, pede abertura, mas passa o resto do dia alimentando exatamente aquilo que deseja dissolver.
Não há operação que resista a uma vida inteira de contradição.
Por isso, magista não reclama de nada.
Ele observa. Ele reconhece. Ele nomeia. Ele assume. Ele muda.
Se não consegue mudar tudo de uma vez, muda o primeiro ponto possível. Se não pode sair hoje, prepara a saída. Se não consegue vencer a situação agora, começa a desmontar a força que ela tem sobre ele. Se não tem energia suficiente, recolhe-se para recuperar. Se não tem conhecimento, estuda. Se não tem clareza, silencia. Se não tem coragem, trabalha a coragem. Mas não fica parado no altar da reclamação oferecendo a própria força para aquilo que o oprime.
Porque reclamar também é ofertar energia.
E o magista precisa saber a quem, ao quê e para onde está ofertando sua força.
Existe uma diferença entre pedir ajuda e reclamar. Pedir ajuda é movimento. Reclamar é estagnação. Existe uma diferença entre desabafar para reorganizar e reclamar para se justificar. Desabafar pode limpar. Reclamar pode viciar. Existe uma diferença entre reconhecer um problema e construir identidade em torno dele. O magista pode dizer “isso está acontecendo”. Mas ele precisa completar com: “e agora eu vou decidir o que faço com isso”.
A pergunta de um magista nunca deve ser apenas “por que isso acontece comigo?”. A pergunta verdadeira é: “o que em mim permite que isso continue governando minha vida?”. Essa pergunta dói, porque tira o conforto da culpa externa. Mas também liberta, porque devolve poder.
Enquanto a culpa é sempre do outro, o poder também está sempre no outro. Enquanto o problema é sempre o mundo, a chave da solução também fica fora de você. Enquanto você acredita que não tem responsabilidade nenhuma sobre sua condição, você também declara que não tem poder nenhum sobre sua mudança.
E o magista não pode viver assim.
O magista pode não controlar todos os acontecimentos externos, porque existem outras vontades, outras forças, outras pessoas, outras estruturas e outros movimentos no mundo. Mas ele precisa controlar sua postura, sua energia, sua direção, sua resposta e sua decisão. E é a partir disso que ele começa a mover o resto. Ele não controla a chuva, mas decide se atravessa, se se abriga, se dança, se espera ou se muda a rota. Ele não controla todas as forças do mundo, mas controla o modo como se posiciona diante delas. E esse posicionamento já é magia.
Ser magista não é nunca cair. É não fazer da queda um templo.
Ser magista não é nunca sofrer. É não transformar sofrimento em identidade.
Ser magista não é ter uma vida sem problemas. É ter força, técnica, vontade e coragem para não se ajoelhar diante deles.
Por isso, quando um magista se percebe reclamando, ele precisa parar e se perguntar: estou tentando transformar isso ou estou apenas alimentando minha impotência? Estou buscando solução ou apenas querendo testemunhas para minha prisão? Estou usando minha palavra para mover a realidade ou para reforçar o muro?
Porque a reclamação, quando vira hábito, é uma magia contra si mesmo.
Ela programa o campo. Ela adestra a mente. Ela vicia o corpo na sensação de incapacidade. Ela coloca a pessoa sempre no lugar de quem sofre a vida, nunca no lugar de quem participa da criação da própria realidade.
E esse é o ponto central: magista participa da criação da realidade.
Se está ruim, ele age.
Se está pesado, ele transmuta.
Se está confuso, ele ordena.
Se está preso, ele rompe.
Se está desalinhado, ele corrige.
Se não quer mais, ele sai.
Se ainda precisa ficar, ele para de reclamar e aprende a transformar a permanência em caminho.
Magista não reclama de nada, porque reclamar não move a realidade a favor dele. Reclamar apenas confirma que ele esqueceu de levantar a mão, firmar a vontade e fazer a energia obedecer a uma nova direção.
Quem é da Arte precisa assumir o peso e a grandeza disso. Não dá para querer o título de magista e viver como refém de tudo. Não dá para falar de poder e terceirizar a própria vida. Não dá para dizer que manipula energia e, ao mesmo tempo, ser manipulado por qualquer desconforto.
Se você escolheu estar, assuma.
Se não quer estar, mude.
Se não pode mudar agora, prepare o caminho.
Se o caminho está fechado, abra.
Se não sabe abrir, aprenda.
Se está fraco, fortaleça-se.
Mas não reclame como quem não tem poder nenhum.
Porque o magista verdadeiro pode até se cansar por um instante, pode até respirar fundo diante do peso, pode até admitir que algo está difícil. Mas depois ele se levanta, olha para a realidade e diz: “isso aqui também se move”.
E move.
Porque magista não nasceu para narrar a própria prisão.
Nasceu para transformar a chave.
KSB-812